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Capa do ensaio Três minutos para morrer, de José Édil de Lima Alves

Ensaio literário

Três minutos para morrer, a narrativa de massa, o romance policial noir e as perspectivas para outros rumos.

Por José Édil de Lima Alves 1- Gênese “O Autor é sempre personagem, dentro e fora de seus livros” Samuel Rawet “Nenhum texto literário se completa sem a participação do leitor.” Esdras do Nascimento

Anexo ao romance de José Carlos Rolhano Laitano.

José Carlos Rolhano Laitano é escritor com uma carreira já afirmada, seja como ficcionista - romancista e contista -, seja como poeta, seja ainda como ensaísta e cronista. Não suficiente, coordena oficinas de criação literária e criação de textos jurídicos, dedicando-se também à produção cinematográfica. Participativo, sempre encontra tempo para envolver-se com grupos e associações voltadas para as produções artísticas, as letras, em particular, exercendo uma prolífica atividade como agitador cultural. Voltado para as criações dedicadas a adultos, não deixou de escrever para o público juvenil com O Crime da letra morta e outras histórias e outros títulos. “Crime da letra morta narra uma festa no livro que está sendo lançado e várias letras aparecem assassinadas. Quem é o(a) assassino(a)?” Ora, aí já um indício forte da narrativa policialesca no fazer literário do autor porto-alegrense. No entanto, a produção de uma narrativa no gênero do romance e/ou novela policial, propriamente dito, viria mesmo a partir de uma sugestão/provocação de um dileto amigo, o professor universitário e membro da Academia Rio-Grandense de Letras, Doutor Ruben Daniel M. Castiglioni. Também bacharel em Direito, Castiglioni insistia na experiência do amigo que realizara uma carreira bem sucedida como Juiz de Direito. Com tal bagagem, assunto na área do crime é que não poderia faltar a quem já se afirmara como narrador competente, para dizer-se o menos. E de que é feita a narrativa policial senão de um bom crime, mais especificamente de um assassinato? Ademais, insistia, não faltava a Laitano o conhecimento da boa novela policial. E de fato, não faltava a ele esse conhecimento, pode-se mesmo dizer intimidade. Leitor assumido desde a pré-adolescência, a José Carlos Laitano sobejava a leitura dos textos policialescos. Revistas como X-9, Mistério Magazine de Ellery Queen, Meia Noite e outras que estavam muito mais ao alcance da mão e principalmente dos trocados no fundo dos bolsos, do que os livros recomendados nas escolas. Compreende-se. Obras baratas, não eram volumes encontrados em bibliotecas que se prezassem, nem recomendados em salas de aula. Mas até por serem discriminados, caiam mais facilmente no gosto dos leitores em formação. Afinal, não é um dos traços do adolescente contrariar as mais enfáticas recomendações dos maiores, particularmente se eles são os pais e os professores? Assim, não era raro um aluno das primeiras séries do ginasial saber mais de Dashiel Hammett, Raymond Chandler, dos próprios primos Ellery Queen do que de um Machado de Assis, José de Alencar ou Joaquim Manuel de Macedo de quem ouviam falar por alto e que decididamente não liam. Em relação aos Ellery Queen, havia ainda o elemento da heteronímia para atrair a atenção dos leitores neófitos e, talvez por isso mesmo, curiosos. Os Queen não eram senão os primos nova-iorquinos, nascidos em 1905, Frederic Dannay e Manfred B. Lee, ou melhor, Daniel Nathan e Maniord Lepofsky, seus verdadeiros nomes de batismo. E havia ainda um outro Ellery Queen, ou seja, o detetive que era também quem escrevia as peripécias cerebrais que fazia para desvendar os crimes, sem mover um músculo. Na esteira de Sherlock Holmes, do escocês Conan Doyle, Ellery engrossava a galeria dos investigadores cerebrinos, onde luziam, além do citado Sherlock Holmes, o belga Hercule Poirot, Parker Pyne, Miss Marple e Ariadne Oliver, criações da Dama do Crime, a inglesa Agatha Christie, dentre outros de menor expressão, mas não menos consumidos. Detalhe que não se deve deixar passar em branco, a importância de haver o registro das ações, em forma escrita, em casos pontuais realizados pelos próprios personagens das referidas novelas, como no caso do Dr John H. Watson, amigo e biógrafo de Holmes, e do próprio Ellery que escrevia as narrativas em que contava o que ocorrera em cada caso que ele desvendava. No imaginário do adolescente que consumia tais novelas é fácil compreender o despertar do interesse de não poucos para os registros escritos de aventuras reais e/ou imaginadas o que, muitas vezes, funcionava mais do que as obrigações impostas na escola para os exercícios de redação com os indefectíveis assuntos: “Minhas Férias”, “Qual minha profissão favorita?”, “Minha Escola”, “Meu amigo predileto” e outros igualmente insossos. No caso em tela, apresentado o desafio pelo Prof. Dr. Ruben Daniel Castiglioni, da UFRGS, não demorou para ser aceito. Laitano, meticuloso, esboçou o assunto que se desdobraria em dois continentes e vários países, envolvendo, a partir de um assassinato e a ânsia de vingança, o contato com uma organização criminosa de fundo nazi-fascista, com ramificações em diversos pontos do globo, realidade que se vive hoje de forma escancarada e, até certo ponto, impune, senão mesmo estimulada por governos dos mais diversos escalões, nos mais diversos países. Na medida em que desenvolvia os temas como se impunham, a necessidade de visitar lugares onde as ações se desenrolariam, na preocupação de ater-se à realidade imposta pela narrativa, buscando a fidelidade máxima nas descrições dos espaços físicos focalizados pelo(s) narrador(es). Em uma palavra, a busca pela verossimilhança. A viagem à Itália, para visitar Verona onde acontece o epílogo da trama aqui focalizada, foi uma meticulosa operação de requintado estrategista, estudada com calma, verificando prós e contras, mas não sem certa dose de ansiedade, própria de quem se depara com tais situações, e manifestada em comentários com alguns de seus pares na Academia e, certamente, com seus familiares e amigos em outros ambientes. Não poderia ser de outra forma. Era na “bella Italia”, país de sua segunda cidadania e terra pela qual tem carinho especial; a “bella Italia”, ultimamente agitada por graves manifestações dos temidos e famigerados “camicie nere” que desde os tempos de Mussolini, há cem anos, têm mantido a “Bota” sob estado de tensão. Solucionados os problemas estruturais apresentados pela obra a criar, a etapa final foi relativamente breve, dedicado ao beneditino trabalho de polir o texto, seguindo a lição de Bilac, a ponto de o leitor não poder notar, na obra concluída, o quanto custou ao autor retirar todos os andaimes de que se valeu na construção, enquanto tal. Na leitura dos seus originais que gentilmente me solicitou, deparei-me com uma narrativa bem estruturada, com personagens convincentes, ações verossímeis e uma forte presença do gênero policial em que as figuras dos norte-americanos Dashiell Hammett e Raymond Chandler sobrepunham-se aos demais criadores, indicando, por si só, a forte marca do romance policial noir, como ficou conhecida a produção policialesca do grande país do norte a partir de 1929, quando Hammett publicou seus primeiros textos: Red Harvest (Safra Vermelha) e The Dain Curse (A Estranha Maldição). Mas seria mesmo assim, tão simples? Repassando minha curta, mas intensa convivência, como o autor, procurei precaver-me para não engolir tão facilmente a isca que me apresentava. O presente esboço de estudo da narrativa busca traçar elementos para possibilitar-me evitar as armadilhas, algumas por demais evidentes.

2 – Literatura de Massa – Romance Folhetim e Romance Policial Noir

Com as mudanças que provocou em praticamente todos os setores da sociedade ocidental, o Século XIX não deixaria impune o das artes em geral e o da literatura, em particular. Na verdade, no tocante a esta, literatura, a mudança foi de ordem radical. Até 1800, quando surgiu o primeiro Folhetim no Jornal de Debates, em Paris, os romances e novelas eram escritos por autores sustentados por nobres - os mecenas, inspirados pelo célebre romano contemporâneo e amigo de Augusto e que patrocinou, dentre outros, Vergílio e Homero -, e as obras tratavam de assuntos ao gosto daquela classe proprietária e diletante, tematizando os assuntos considerados elevados e, no mais das vezes, os assuntos frívolos, correntes nos grandes salões por ocasião dos bailes, nos intervalos e finais dos grandes espetáculos teatrais e dos saraus, obviamente presentes nos cafés onde os capitães de indústria e proprietários rurais encontravam-se amiúde para manter ou depor governantes, incluindo-se aí as cabeças coroadas. O folhetim, como se sabe, inicialmente foi um suplemento encartado no jornal, originalmente consagrado à crítica literária e à crítica das demais artes, composto por quatro páginas e fazendo parte da edição in folio do periódico. A alta burguesia, cujo modelo era a dita nobreza, em tudo copiava o que esta consumia, sem a mínima preocupação em ser original. As classes inferiores, com essas não era necessário haver preocupação, porquanto eram formadas por analfabetos ou por vilões que, ocupados com a produção para a sobrevivência, nem de tempo dispunham para dedicar-se à fruição do que quer que fosse. Contudo, o golpe fatal ocorreu em 1836, quando Emile de Girardin, ou por decisão própria e refletida, ou por mero acaso, publicou no folhetim do jornal Presse, naquela mesma capital francesa, a partir do dia 1° de julho, o primeiro romance em fascículo. O mero acaso, acima, deve-se à versão de que Girardin, responsável pela montagem do folhetim não designou responsável para a composição que seria publicada na data mencionada. Já sobre a hora de baixar a matéria para a impressão, percebendo sua falha, instruiu para que fossem copiadas as páginas de uma novela espanhola, traduzida para o francês, por óbvio, que ele estivera lendo e a que atribuíra o lapso. A cópia foi feita até preencher o espaço do folhetim. Nos dias subsequentes os leitores não cansavam de enviar cartas à redação, parabenizando o editor pela iniciativa e exigindo, pode-se dizer, a continuação. A receptividade do púbico àquela forma de publicação de um romance ou novela em capítulos foi praticamente imediata. Facilitava em muito o consumo, pois era breve e mantinha o interesse para saber-se os desdobramentos da narrativa. Ademais, era bem mais barato, porquanto ao consumir-se o jornal, já um hábito consagrado pelo menos nos grandes centros europeus e mesmo americanos, havia o bônus da novela. No auge da produção folhetinesca, todos os consagrados autores, em seus países, tiveram contratos com as empresas jornalísticas, não poucos chegando a amealhar fortunas. Em geral, pode-se afirmar, tal produção garantiu a independência financeira da maioria dos escritores, possibilitando afirmar que pela primeira vez na história da produção literária, o autor passava a ser um profissional das letras. E o folhetim também provocou o aumento de leitores para os romances, atraindo aqueles contingentes das classes médias urbanas que, com as mudanças sociais, recorriam ao estudo para aprimorar-se, em busca da disputa por vagas na sociedade de consumo que se organizava. E a tal ponto deu-se a procura por romances que muitos deles, sem serem lançados em folhetim, foram considerados folhetinescos, como o Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo, publicado em 16 de março de 1831, pela editora Paris Charles Gosselin Libraire. Depois de 1850 praticamente desapareceu o folhetim, como concebido no início daquele século, mas as publicações em capítulos permaneceram, sendo deslocadas para os rodapés de páginas dos grandes jornais. O nome folhetim, já consagrado, permaneceu. Desde sua origem visando servir de entretenimento a um público urbano pouco exigente, o romance-folhetim é estruturalmente simples. Com intriga bastante complicada, a fim de manter a atenção do seu leitor, ele privilegia o mistério e mesmo o terror. As personagens são simplificadas ao máximo, restringindo-se aos tipos; há o gosto pelos golpes teatrais e aparições súbitas de certas personagens quase esquecidas, tanto do leitor como do autor, e são frequentes as interrupções em pontos críticos e mesmo no clímax. Os assuntos preferidos são os que enfocam as preocupações de caráter social, as lutas contra a opressão e a injustiça, destacando a figura do herói que luta com denodo em favor das boas causas. Contudo, também há casos em que o homem é submetido ao destino, à necessidade, sendo vítima de forças que lhe são muito superiores, não lhe restando mais do que a resignação. Eivados de defeitos, com falhas por onde se queira ver, não resta dúvida, contudo, que o romance-folhetim foi o maior responsável pela popularização da literatura como tal, pois como é comum ainda hoje ouvir-se: Não interessa tanto o que se lê, pois o importante é ler. Ora, parente muito próximo do romance-folhetim é o romance policial. Surgido nos Estados Unidos da América do Norte, com Os assassinatos da Rua Morgue, 1841, Edgar Alan Poe influenciou o gênero de modo definitivo. Os contos de detetive de Poe com o personagem C. Auguste Dupin acabariam por se tornar a base para as futuras histórias de detetive na literatura. Segundo sir Arthur Conan Doyle: "Cada uma (das estórias de detetive de Poe) é uma raiz da qual toda uma literatura se desenvolveu. Onde estavam as estórias de detetives antes de Poe soprar o sopro da vida nelas?" Como o folhetim, o policial também sofreu toda sorte de conceitos depreciativos, considerado como subliteratura, indigno de um leitor mais exigente e apreciador da verdadeira literatura, aquela capaz de elevar o espírito (sic), embora não se explicitasse o que isso seria. No Brasil, para ficarmos em nosso ambiente, embora um Medeiros e Albuquerque, um Monteiro Lobato, um Rubem Fonseca, um Jô Soares ou um Luiz Fernando Veríssimo, dentre outros, tenham explorado o gênero, não consta que tivessem com essas narrativas penetrado os círculos das escolas, de qualquer nível, onde se ocupam com o fazer literário. Não pode causar espécie. Na Europa superdesenvolvida somente a partir dos anos sessenta do século XX tais narrativas passaram a ocupar as atenções dos grandes teóricos da literatura, tais Tzevtan Todorov e Umberto Eco, para ficar apenas em dois dos mais afamados. O último aderiu de tal forma ao policial que produziu uma narrativa tida como exemplar, o Nome da Rosa, publicada em 1980, que atingiu records de vendagem no mundo todo. À medida que a narrativa policialesca foi penetrando nos muros das universidades e ocupando intelectuais dedicados aos estudos da literatura, foram surgindo os conceitos e as classificações. Assim, afirma-se que “Romance policial é um gênero literário que se caracteriza, em termos de sua estrutura narrativa, pela presença do crime, da investigação e da revelação do malfeitor. O romance policial também demonstra que não pode haver crime perfeito, logo, não há lugar para a impunidade, para o crime sem punição.” Em se tratando de estilos, são os seguintes hoje reconhecidos por quem os estuda: Whodunnit Whodunnit? abreviação de Who Done It?, Quem Fez Isso? em inglês, é o tipo de romance policial em que há vários suspeitos para um crime, seja ele roubo, assassinato, sequestro, e a identidade do culpado só é revelada nas últimas páginas do livro. Neste gênero destacam-se Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Edgar Allan Poe. Noir Os romances Noir, Preto em francês, é o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, envolverem-se em romances e sexo. Também existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas de vários. O criador desse tipo de romance foi o norte-americano Dashiell Hammett, com o detetive Sam Spade, sendo também dos mais conhecidos seus compatriotas Raymond Chandler, criador do detetive Phillip Marlowe, e A.A. Fair, com o detetive Donald Lam. Thriller Jurídico Thrillers Jurídicos são romances policiais protagonizados por advogados, promotores, policiais entre outros envolvidos não só em investigar, como também em provar a inocência ou a culpa de algum personagem que contrata seus serviços; esses livros também mantém mistério em todo o seu enredo e a solução do mistério só é revelada perante o juiz. Erle Stanley Gardner criador do advogado Perry Mason e do delegado Doug Selby é um dos mais conhecidos autores da categoria, também tendo grande influência o autor John Grisham. Thriller Médico Thrillers Médicos são romances policiais protagonizados por médicos, que usam seus conhecimentos para combater doenças e epidemias, erros médicos, etc., além de descobrirem circunstâncias e causas de morte através de análises médicas. Patricia Cornwell criadora da médica-legista Kay Scarpetta é uma das mais conhecidas autoras dessa categoria.

Tzvetan Todorov, ainda em fins dos anos 60 do século passado, escreveu vários trabalhos sobre a narrativa policial, sendo dos mais importantes “A tipologia do romance policial”, em As estruturas narrativas, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva, de São Paulo, 1970, numa tradução da renomada professora universitária Leyla Perrone-Moisés. Nesse estudo, afirma o teórico búlgaro que, de 1963 até seu falecimento em 2017, esteve radicado em Paris:

Poder-se-ia dizer que todo grande livro estabelece a existência de dois gêneros, a realidade de duas normas: a do gênero que ele transgride, que dominava a literatura precedente; a do gênero que ele cria. Existe, entretanto, um domínio feliz onde essa contradição dialética entre a obra e seu gênero não existe: o da literatura de massa. (...) O Romance policial tem suas normas; fazer “melhor” do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer “pior”: quem quer “embelezar” o romance policial faz “literatura”, não romance policial. O romance policial não é aquele que transgride as regras do gênero, mas o que a elas se adapta (...)

Seja como for, a estrutura da novela policial noir, deve observar os princípios da verossimilhança, reconhecendo sua natureza de distanciamento com o real, ele mesmo, mas nem por isso deixando de fundar-se em pessoas e fatos históricos, desde os mais triviais aos mais marcantes, geralmente tendo as ações desenvolvidas em grandes comunidades urbanas, os personagens atuando como os milhares de seus semelhantes, cada um com suas virtudes e com seus defeitos, os detetives lutando pelo império da justiça que nem sempre quer dizer o primado da lei. Sem necessariamente haver o final feliz, deve existir um princípio, meio e fim que não atropele propriamente a lógica. Os agentes da justiça, os detetives e seus parceiros, no caso, devem ser convincentes no que fazem, e a exposição de seus defeitos apenas atesta que se tratam de humanos. Quanto à execução das penas àqueles que julgam merecedores do castigo por terem cometidos crimes, cada qual age segundo seu temperamento. Num jargão bem conhecido: “Os fins justificam os meios”.

3 – Três minutos para morrer – estruturas da narrativa e uma proposta de análise Hermenêutica

Em se tratando da estrutura do texto como um todo, o romance está dividido em três segmentos: Livro I, Livro II e Livro III, sendo apresentados por dois narradores que se alternam aparentemente de forma aleatória, mas que fazem sentido para a compreensão do leitor virtual em relação aos fatos narrados. No Livro I, a narrativa é apresentada pelo Narrador 1 – em primeira pessoa e com uma “visão de dentro” dos fatos narrados, porquanto absolutamente unipessoal do que ele pretende, do que lhe acontece e do que ele planeja para as sequências posteriores:

Eu estava no avião a dez mil metros de altura e o meu propósito era matar um corrupto vendedor de armas. (Livro I, Cap. 1)

Esse narrador aparecerá no decorrer da narrativa em catorze dos vinte e seis capítulos do Livro I, em vinte e três dos trinta e três capítulos do Livro II e em onze capítulos dos vinte e três, do Livro III. Ou seja, há uma acentuada predominância desse Narrador 1 (N1), se comparado ao Narrador 2 (N2) – em terceira pessoa, que apresenta ao leitor virtual uma “visão de fora” do que ocorre, do ocorrido, e mesmo do por ocorrer, posto tal narrador ser onisciente:

A noite estava fria como se a porta do refrigerador estivesse aberta, mas não tinha vento, então era frio seco, dessas noites de primavera no meio do campo, casaco de náilon e boné, ambos com distintivo da Polícia Federal, o suficiente para aguentar a temperatura, O céu apresentava todas as estrelas, e a escuridão, naquele ponto da estrada, facilitava a identificação das Três Marias e do Cruzeiro do Sul, na verdade as únicas formações que o delegado Felipe Ferruccio sabia distinguir. (Livro I – Cap. 4)

(...)

Rapidamente concluiu a explanação e colocou-se disponível para perguntas. A paulada fora muito forte, jogara a bola na pista de boliche para derrubar todos os peões de madeira, quanto menos gente aventurando-se a publicar, melhor. Os grandes textos já foram escritos nos dois últimos séculos e, hoje, seu mister, dele Ferruccio, era garimpar texto raro, inovador, uma preciosidade. Esperança fugaz. E sorte. (Livro I – Cap. 6)

O Narrador 1 identifica-se no Capítulo 2, do Livro I. Ao responder ao recepcionista do hotel em Foz do Iguaçu que lhe indagara o nome para preencher o formulário, responde de forma zombeteira, embora em tom sério: - Coloca aí Marlowe. - Mar Love? – o sujeito tinha a pretensão de falar inglês. - É. pode ser. Felipe Mar Love. (...)

E com tal nome o N1percorre toda a narrativa. A intriga, de acordo com o padrão do Policial Noir, é repleta de lances inusitados, verossímeis, no entanto, no âmbito do narrado. Tudo inicia após a decepção de Mar Love que vê o representante de lei mandar soltar pessoas envolvidas com o assassinato de seu irmão, um escrivão da polícia civil, quando do assalto a uma agência bancária. Alegando princípios da “letra fria da lei”, três semanas após a prisão, o juiz manda libertá-los. Nas palavras de Mar Love:

. . . Ele estava numa fila de banco, aproveitando um momento livre na delegacia de polícia, onde trabalhava como escrivão, e ocorreu um assalto, homens entraram, o vigilante mal preparado e com um revólver vagabundo de cinco projéteis, iniciou o tiroteio, meu irmão tentou sacar sua arma, mas caiu atingido no peito. Morreram dois, um velho e meu irmão, meu único irmão que minha mãe pariu logo antes do falecimento do meu pai. . . . Dois bandidos conseguiram fugir e outros dois acabaram presos logo que saíram do banco, mas em três semanas andavam pelas ruas porque o juiz assim decidiu em nome da letra fria da lei; depois soube que se diziam garantistas, uma bosta de nome para quem ainda não levou tiro ou a filha não foi estuprada. (Livro I - Cap.3)

Face à iniquidade das leis hoje vigentes que se escondem sob as capas pretas nos supremos tribunais e zomba da Justiça, ela mesma, Mar Love sai em busca dos assassinos, estribado no princípio da multissecular lei bíblica, expressa no Êxodo, 21:24 e também encontrada no Código de Hamurabi, vazada no “olho por olho, dente por dente”. Encontrado um dos assassinos a quem mata depois de ser informado que o mandante era um delegado sediado em Foz do Iguaçu e contrabandista de armas, Mar Love logo se vê envolvido com uma rede internacional não só de traficantes de armas, como de grupos de neonazistas, em articulações para tomar o poder em países da América do Sul e da Europa. A identificação com o romance policial norte-americano dos anos trinta/quarenta, do Século XX, fica explicitada já no primeiro parágrafo no Livro I, Capítulo 1, quando o locutor, N1, diz:

(...) Sentado na poltrona, ao lado da janela, lia Chandler, Raymond Chandler, meu autor preferido de romances policiais, Nesses livros aprendemos a arte de assassinar pessoas e, de lambuja, ensaiamos o discurso que nos justifica.

Mas não se trata apenas de o detetive ou de o matador-justiceiro desdobrar-se até assumir os riscos de vir a ser eliminado, senão que de se preocupar em deixar o registro por escrito - em forma de romance, por que não? – das peripécias enfrentadas para o bom cumprimento do desejado. Exemplos não faltaram na literatura policialesca. Sherlock Holmes teve o Dr. Watson e o próprio Chandler escreveu um dos ensaios mais percucientes e lúcidos sobre a novela policial que intitulou, significativamente de “A Simples Arte de Matar”. Em Três Minutos para Morrer, o delegado da polícia Federal, Felipe Ferruccio é um competente crítico e narrador, palestrante requisitado nos meios acadêmicos e interessado em saber-se reconhecido entre os intelectuais das letras e dos letrados. Mar Love que tem com Hammett e com Chandler traços identitários não desprezíveis, também se interessa em escrever ou, quanto mais não seja, ser personagem para quem se dedica a escrever. Ele afirma: Eu era funcionário público como meu irmão e desejava dedicar o melhor do meu tempo para escrever, era policial e estava cansado de caçar bandido para que um juiz defensor de tese logo o soltasse, queria que a mulher desse juiz se ferrasse, e que saber? Eu nem prenderia o estuprador, olho por olho, não é assim? Agora queria ser escritor e poderia testar, na prática, o que narraria nos meus textos policiais. Em dez anos estaria aposentado e dez anos é o tempo que gasta um escritor para tornar-se conhecido. (Livro I – Cap. 3)

Com Hammett e Ferruccio, Mar Love compartilha o fato de haver sido ligado à Polícia, embora não tivesse sido propriamente um detetive, como o norte-americano fora na renomada Agência Pinkerton, mas um policial sempre atrás de bandidos; também não chegara a delegado, e menos ainda da Polícia Federal, como o brasileiro oriundi, Felipe Ferruccio; com o criador de Sam Spade e com Chandler, divide o gosto pelo exercício da escritura, registrando o que um agente da Justiça é capaz de fazer para vê-la soberana, ocupando o lugar a que tem direito na sociedade, mas que encontra na lei seu empecilho mais determinante – e determinado, o que também é compartilhado pelo agente federal Ferruccio, por mais que sua colega de trabalho, a agente Katarina, uma mulher escultural, fique indignada com os conceitos defendidos por aquele singular representante da lei. Naturalmente, para contemplar os elementos essenciais da narrativa Noir, não poderia faltar as referências ao sexo, bem como aos atos violentos até com rasgos de sadismo, e uma linguagem de nível não apenas popular, mas mesmo chulo, presentes nas falas de ambos Narradores. Em se tratando de modelo, apesar do nome que prefere adotar, Mar Love tem muito mais a ver com Sam Spade, do Falcão Maltês, do que com o Philip Marlowe, particularmente do Longo Adeus, em que o detetive sofre toda espécie de humilhações e mesmo em seus momentos mais duros nem perto chega do sadismo que Mar Love utiliza para livrar-se dos infratores que prejudicam o social e agridem a Justiça, de seu ponto de vista. Chandler por Chandler, Johnny De Ruse, do Gás Nevada, está muito mais para Mar Love do que o Philip Marlowe propriamente dito. No romance aqui focalizado o autor explora com pertinência o que pode ser a mesma persona nas figuras de Felipe Ferruccio, Mar Love e mesmo do Autor, por que não? Aquele não é esse? O Delegado não é o que se apresenta como Mar Love? Ferruccio e Mar Love não são o que, na psicologia jungueniana, se refere à personalidade que o sujeito apresenta aos demais (muito) contrária à verdadeira? Ou não poderá ser o caso do que em literatura é definido como “o autor que se faz presente ou se incorpora à obra”? O próprio autor não está, de alguma forma, nas figuras do delegado Ferruccio e do justiceiro? O que pensam Ferruccio/Mar Love a respeito do sistema de leis neste país – incluindo aí os procedimentos adotados pela própria polícia que contrariam os princípios mais comezinhos da lei - que não seja admitido como válido pelo Autor, ele mesmo, quando se manifesta pela terceira pessoa, como narrador onisciente? Na passagem abaixo pode-se notar tal presença:

O tráfico de drogas é assunto especializado, a polícia tem equipes para tratar disso. Basicamente, a busca de informações acontece com vagabundos detidos nas ruas portando cigarros de maconha, um grama de coca ou uma pedra de crack. Uns safanões na orelha, a promessa de que apodrecerão numa cadeia imunda e logo indicam um intermediário, que é outro vagabundo, mas com esse outro vagabundo um joelhaço nos bagos, bofetada ou até dois dias de pau-de-arara no meio do mato com muito mosquito, resolve. Surgem outros nomes e o elo do tráfico é percorrido nome a nome, porrada a porrada, até chegar ao sujeito que traz a droga para a cidade. São muitos. Aí complica. Policiais experientes, vestidos como traficantes, falando como traficante, utilizando dinheiro público, participam do jogo comprando pequenas porções – para experimentar a qualidade; depois a quantidade da compra aumenta, o dinheiro emprestado pela polícia avoluma, até que vislumbram o cara principal e a droga aparece por avião, caminhão, ônibus, qualquer meio de transporte que permita volumes expressivos e não chame a atenção. Um jogo de risco, todos sabem, mas o lucro compensa, sempre compensa. A polícia consome meses, anos de campana, a impunidade reduz os cuidados com a segurança dessa gente e um erro é cometido. Essa, a regra de ouro: paciência e atenção dos investigadores. E que ninguém pule para o lado de lá, que a grana é muita. (Livro I – Cap. 14)

Para a perspicaz Delegada Federal Katarina, embora novata e com certos pruridos face a seu chefe que chega à condição de seu amante, a dupla personalidade Ferruccio/Mar Love é quase uma certeza, embora alguns pequenos detalhes não se encaixem, como o fato de o delegado ter irmão, mas sem que tenha sido assassinado. Para a delegada, porém, após romper o relacionamento amoroso, tal detalhe não chega a ser decisivo para impedir que ela acredite serem uma só pessoa o delegado e o justiceiro, o que diz abertamente, a ponto de provocar a irritação de seu superior e ex-amante: Katarina descruzou as pernas, levantou o nariz, mas antes que dissesse a primeira palavra, Ferruccio concluiu: - Igualmente comunico ao senhor que se não me autorizar esta viagem, peço férias a faço por conta própria. - E Mar Love também irá?, ironizou Katarina. - Katarina, desculpe, mas você está no limite da responsabilidade de uma delegada. Ou você oficializa a acusação ou, por favor, não repita essa alusão à minha pessoa... Mas respondendo à sua pergunta, digo-lhe que não duvido que Mar Love lá esteja porque, parece, está sempre ao par do que ocorre nesta Superintendência. E o senhor Superintendente, o que decide? (Livro III, Cap. 5)

Mar Love, vem do nome do personagem de Chandler, como se sabe. Ora o prenome do detetive, personagem central em nove romances, é Philip, ou seja, em português Felipe, prenome do delegado federal oriundi. Apenas coincidência nos prenomes ou alusão subreptícia para levar o leitor virtual a pensar como Katarina? Também as presenças de ambos nos mesmos lugares por ocasião das execuções realizadas por N1, poder-se-á dizer que se constitui num forte indício apontando para uma única direção: Mar Love é Ferruccio. Contudo, é necessária muita cautela. Afinal, o próprio Mar Love não descarta a possibilidade de ser apenas uma personagem, manipulada por um autor que nem ele sabe quem é. Recorrendo sempre às manifestações das artes – literatura e cinema – e a personagens reais e fictícios a elas ligados, Mar Love contraria o princípio básico da verossimilhança da qual afirmara, em provocação ao delegado Ferruccio, nunca se afastaria: . . .

E eu atuo com verossimilhança, não invento situações impossíveis, como fazem os coleguinhas dos textos policiais que você tanto aprecia. Matarei uma figura abjeta assim que obtiver informações sobre a origem das armas, e você podia estar presente. O cadáver será seu. Diga lá se aceita. Mar Love.

(O itálico é do autor deste ensaio - Título I – Cap. 21) Admitindo, de alguma forma, que nem sempre é possível escapar do verossímil, como anota Todorov em seu estudo ‘A verossimilhança que não se pode evitar’ , porquanto a verossimilhança em narrativas policiais deve ser entendida em sua especificidade que é a da instaurar o antiverossímil, Mar Love pode, como faz, provocar a dúvida, manifestando-se sobre sua realidade existencial num mundo dito real, reconhecendo a possibilidade de ser uma realidade ficcional, estando sua vida, portanto, nas mãos de seu autor:

... e você está beijando meus lábios, chorando suavemente, e pergunta-me se é verdade o que Katarina afirma, que sou personagem, e se eu sou personagem onde está o autor que tudo pode, e se tudo pode, por que não me salva? Se eu pudesse falar diria a você que Borges, o grande Borges, no seu conto El Muerto, colocou o personagem ante o pelotão de fuzilamento, mas concedeu-lhe um ano para que pudesse completar seu poema e esse ano decorreu no espaço de tempo entre a ordem de fogo e os disparos dos soldados... (...) Quem dera que eu seja personagem e que o autor faça do meu último minuto tempo bastante para um próximo livro, para que eu possa saber quem será o novo líder nazista, para que eu possa amar você. A fronteira da ficção não é a verossimilhança? (Livro III – Cap. 23)

Se entendermos aqui ficção como romance policial, a resposta deverá ser afirmativa, por certo. Contudo, a pergunta que não quer calar é de outra ordem: Três minutos para morrer é (ou será) um romance policial? Se ficarmos no superficial, no terreno das aparências, certamente que sim, até pelos referenciais que o autor não economiza ao longo da narrativa, seja remetendo a autores e obras de romances, criticando uns e outros, positiva ou negativamente, seja pelas referências a filmes, autores, atores e narrativas em que os julgamentos críticos também vão do reconhecimento positivo ao negativo. Contudo, se estivermos atentos aos princípios ou às leis que regem as estruturas das narrativas policialescas, e em especial as ligadas ao Romance Noir, então a resposta é francamente negativa, porquanto aquelas exigem uma estrutura linear, com princípio, meio e fim, garantindo ao leitor virtual a satisfação de saber os resultados dentro do que a verossimilhança exige, mesmo que para isso tenha de ser admitida a presença do antiverossímil. Ora, no romance aqui focalizado para o ensaio, não é o que acontece, já pela presença dos dois narradores que apresentam pontos de vista diferentes, visto um ser onisciente (N2), diferente do outro (N1) que apenas narra o que lhe acontece, colocando juízos pelos quais é o único responsável, já pela ausência de solução final coerente com o desenrolar das ações anteriores, visto o final ficar completamente em aberto. Então, salvo equívoco que poderá vir a ser demonstrado, Três minutos para morrer é um romance que, remetendo ao policial e particularmente ao Noir, inscreve-se numa categoria específica, enquanto narrativa autônoma que se confessa narrativa livresca, o que é inadmissível para um romance policial, como no-lo ensina Todorov. . No romance aqui focalizado a realidade do livro, enquanto tal, é a própria história desse livro. As preocupações de Mar Love em tornar-se um escritor de romances a partir das suas experiências enquanto justiceiro, admitindo que pretende registrar seus feitos para se tornar um ficcionista, retira a presente narrativa do gênero policial por não se enquadrar em nenhuma de suas espécies reconhecidas. Se poderá se tornar germe de um novo gênero de livros policiais, possibilidade que a priori não se lhe pode negar, apenas o tempo poderá responder, bastando que outras narrativas surjam afirmando os caracteres diferentes para as quais esta aponta e ousa tematizar.

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