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Academia de Letras O que é, o que deve ser?

José Carlos Laitano


Por vezes é mais prático começar um debate pela negação: o que não deve ser uma Academia de Letras.



Não deve ser palco para egos inchados ou prêmio, no ocaso da vida, para reconhecimento como personalidade intelectual, pois o que permanece não é a pessoa, mas a sua obra, se for densa e universal.



Não deve a Academia confundir-se com grêmio literário ou associação de escritores. Estas agremiações, importantes no cenário cultural, todavia essencialmente corporativas, promovem lançamentos de livros, congraçamentos, divisão de esforços para o aproveitamento coletivo de eventos, como feira de livros, ou divulgação de suas obras, especialmente as coletâneas. Para ingresso nessa comunidade de escritores, basta a publicação de texto – antes, no formato de livro; hoje, em qualquer mídia, mesmo a particular, como o blog – o que, em absoluto, é demérito.



A Academia de Letras é, sobretudo, institucional. Visa o estudo e o aprimoramento da língua nacional; o exame ou reexame da história do seu povo; o registro da linguagem regional.



A Academia cultua a memória dos seus escritores, nacionais e estrangeiros, suas vidas e obras, revivendo-os perante as novas gerações.



Sobretudo, o papel da Academia é muito próximo, senão inserido, no agir do Estado, na gestão cultural e educacional dos governos, discutindo seus conceitos. Sábio o governante que conclama seus acadêmicos para essa tarefa superior.



Do acadêmico exige-se o estudo e a produção de textos ensaísticos com elevado nível de aprofundamento dos temas, além da produção da sua própria obra literária.



Portanto, na presente visão pragmática e concisa do tema proposto no título, não cabe, no seio acadêmico, intelectuais sem o perfil necessário para a enorme tarefa do Sodalício. É importante a sua obra literária, mas não suficiente.



A Academia de Letras realiza seu mister institucional, como antes posto, sem detrimento de realizações como seminários, simpósios, congressos ou cursos, propiciando a presença de grandes pensadores, artistas e ativistas culturais.



Em todo o universo acadêmico, em qualquer país, é natural a alternância de momentos de grandiosos feitos e fases de profundo ostracismo, e tais períodos de dormência resultam do envelhecimento dos seus membros imortais, eis que vitalícios; eventualmente em razão de dissensões internas motivadas pela disputa de poder ou dificuldade em conviver com os contrários.



Mas também é fato histórico – e o relato das academias rio-grandenses assim indicam – que sempre surge o paladino da cultura que faz renascer o espírito de aventura da Arte, como um OlimpioOlinthode Oliveira, Olinto Sanmartin, João Cezar de Castro ou Dante de



Laytano.



É a fase que vivenciamos, hoje, no Rio Grande do Sul, desde os anos 80, com o esforço de Dante de Laytano, que permaneceu oito anos liderando o nosso mundo acadêmico com seu lastro cultural-político-social; e seus sucessores, que mantêm a Academia Rio-Grandense de Letras em pleno funcionamento, embora ainda comedida, preocupada com suas estruturas internas, em recobrar o reconhecimento público que lhe é devido.



A Academia Rio-Grandense de Letras conta, cada vez mais, com nomes dotados de luminosidade própria, e ensaia um passo adiante.



Aglutinando as academias municipais e regionais no Estado, cada qual com suas singularidades; difundindo a ideia dos verdadeiros objetivosacadêmicos; irmanando-se aos Órgãos governamentais no fazer cultural.



Como declarou, faz algum tempo, o professor Fritz Teixeira Sales, um dos organizadores da Universidade de Brasília: “uma academia édefinida como instituição que tem por objetivo mais imediato reunir uma elite intelectual que seja expressão e sustentáculo cultural de um dado momento histórico”.



E, mais adiante: “as academias são, frequentemente, acusadas de serem instituições fossilizadas, estagnadas e inoperantes. Quando ocorre terem fundamento essas denúncias, a culpa cabe, sem dúvida, aos próprios acadêmicos. Afinal, poucos têm, como eles, tanta autoridade intelectual e social para fazer algo de objetivo para nossas letras”.

 

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